OS DOMINIOS DO SABER NA MODELAÇÃO COMPORTAMENTAL

Silva Teles, introdutor da geografia no ensino superior em Portugal escreveu, em 1908, L’Enseignement Supérieur de la Géographie, que consistiu numa memória apresentada ao IX Congresso Internacional de Geografia, que teve lugar em Genève. O congresso nomeou uma comissão, da qual fazia parte Teles, cujo propósito era redigir uma ‘definição de geografia’.
De notar que em 1908 a geografia institucionalizada dava os primeiros passos em Portugal e o seu lugar no ensino superior só agora começa a ser discutido. Teles defendia que a afirmação da geografia, enquanto ciência, no contexto do Evolucionismo, que servia de base às ciências naturais, passava pela sua afirmação enquanto disciplina universitária. O lugar da geografia face às outras disciplinas universitárias não o vou discutir agora, nem tão pouco a validade das considerações de Silva Teles mas não me escuso de fazer eco de uma das suas afirmações, a capacidade da geografia de “pensar em conjunto”, para suportar a relação dos domínios do saber com a modelação comportamental dos seus cultores, em particular dos geógrafos.
Em nenhuma circunstância os saberes; “Saber-Saber”, “Saber-Fazer” e “Saber-Ser” fazem sentido se desconectados da respectiva modelação de comportamentos e atitudes. O geógrafo, em particular, pela sua capacidade de ‘pensar em conjunto’ deve integrar o domínio dos seus comportamentos nesta “trilogia” de saberes e, como tal, deve demarcar-se do senso comum nas suas considerações.
A afirmação da geografia, da sua validade na esfera socioeconómica a que dei o mote deve seguir essas considerações. Deve o geógrafo abster-se dos juízos de valor tão caros às massas e consubstanciar os seus saberes no lado das soluções e não dos problemas.
Não posso, neste Blog, aceitar uma outra orientação, o conhecimento, a absorção de saberes só faz sentido nas suas manifestações práticas, como tal, não aceito que se siga a bitola do criticismo puro e destrutivo.
A orientação que pensei para este Blog está do lado das soluções e note-se que, por soluções não entendo passividade, não descuro a importância da crítica, mas não a aceito vazia. Não existe interesse absolutamente nenhum em simplesmente dizer mal, mal de tudo e mal de todos. Isso pode ser feito, mas é necessário que seja justificado e, ainda mais necessário, deve ser apontado o outro caminho.
Ao geógrafo é exigido coerência, entre o que sabe e o que demonstra saber. O seu domínio científico é importante na validação de soluções, as soluções que defendo serem necessárias à sustentabilidade socioeconómica.

Mais uma vez fica o repto, afirmem a validade do geógrafo nesse jugo. Se apenas se interessarem em dizer mal façam-no noutro lado. Aqui querem-se soluções não só problemas.

AFIRMAÇÃO DO GEÓGRAFO NO MERCADO DE TRABALHO E O SEU CONTRIBUTO PARA O COMBATE À CRISE SOCIOECONÓMICA

A Geografia, enquanto ciência passou, como todas as demais, por vários estádios de maturação. Em cada circunstância, em cada período histórico, vários foram os factores que influenciaram a sua produção de conhecimento.
Em nenhum momento o saber cientifico está isento de pressões externas sejam assumidas ou dissimuladas em juízos de valor, moralismos, simples crenças ou, em última análise traços culturais. De qualquer das formas não será incorrecto afirmar da validade das suas concepções, mesmo que, algumas delas, contrariadas pelo tempo e por novas produções, tenham deixado de cumprir com a sua função.
O que está em jogo, o que coloco em causa, é precisamente essa função, é o interesse social da produção de conhecimentos, assumidos como verdades e consubstanciados como pilares da estrutura socioeconómica.
Não pretendo abrir um parêntesis para justificar os prejuízos da crença absoluta no conhecimento científico nem tão pouco esgrimir argumentos diferenciadores dentro desse mesmo paradigma, esse é um mal com que temos de viver. O que me importa e pretendo aqui fazer é colocar sob uma enorme interrogação o interesse em classificar um disciplina cientifica por níveis de importância e dar-lhe, por conseguinte, a respectiva utilização, seja no apoio à investigação seja no aproveitamento das mais valias que daí advêm.
O meu propósito, por certo já perceptível, é afirmar a validade da Geografia no computo das demais ciências, sem a colocar acima ou abaixo, esse é um debate que ficará para outra altura, e o seu contributo para o mercado de trabalho.
O manifesto Geográfico, a que tento dar corpo, encerra uma enorme frustração, aliás, é ela que lhe dá corpo. Em plena crise económica e social o país desaproveita conhecimentos, não aproveita as mais valias, os seus recursos endógenos. E mais frustrante ainda é saber que o faz não por excesso de recursos, de oferta de Geógrafos porque, de facto, não existe, como em outras áreas, um excesso de especialistas mas sim o desconhecimento da importância do seu contributo, do contributo das suas competências que vai muito para além da esfera da esfera da administração publica. Essa é, outrossim, uma visão redutora que também não corresponde à verdade. O Geógrafo tem potencial para se integrar e para contribuir para ultrapassar a crise socioeconómica que Portugal atravessa em vários outros domínios do mercado de trabalho.
Sou por certo suspeito nas afirmações que faço mas procurarei demonstrar, sem que restem duvidas, dos pressupostos supra referidos e espero consegui-lo com este manifesto em que desafio outros Geógrafos a comentar as minhas afirmações. Se por um lado procuro a minha própria integração no mercado de trabalho, por outro lado procuro que seja feita num duplo reconhecimento, o das minhas capacidades, incluíndo as de Geógrafo e das capacidades dos Geógrafos, enquanto cultores de saber que pretendo ver reconhecidos como necessários para e pela sociedade.
A seu tempo irei expor, neste espaço, as minhas considerações, enquadrando o Geógrafo nos vários sectores da economia portuguesa, demonstrando de que forma se poderá integrar e que mais valias resultam dessa integração mas, para já deixo apenas o repto a outros geógrafos ou a quem o queira fazer. Afirmem a validade da Geografia para os vários sectores do mercado de trabalho ou provem o contrário, que estou enganado e que o Geógrafo não tem espaço no mercado de trabalho.